LABIRINTOS

                               LABIRINTOS

 

Acordei lânguido com o sol a bater no meu rosto.

Aquele calor quente e aconchegante me fizera cair no sono.

De repente, no meu horizonte; avistei uma folha de uma árvore a cair do galho.

Estranhamente minha atenção se voltara para essa cena.

Neste momento, o tempo parecia haver parado.

Ela  rodopiava lentamente ao cair. Como uma bailarina a fazer um solo no ar. E sua perfomance  ficava cada vez mais bela, quando o vento, juntamente com o Sol  criavam  movimentos de balé e reflexos de luz e sombra.

Como que hipnotizado pela cena; veio a memória lembranças em relances do meu passado:

“…cochilava deliciosamente com uma canção de ninar ao fundo, cantada por uma linda mulher, sentada ao rodapé da cama.  Terminada a canção, minha mãe me deu um grande beijo. E me fitou amorosamente…”

A  folha deu outro rodopio ao seu cair, uma luz que nele refletiu me cegou por alguns segundos.

“…ouvi alguns “ urras” e aplausos fortes de palmas. Estava eu no altar de um placo a “colar o grau” da Universidade. Enquanto o meu paraninfo me presenteava com uma medalha de melhor aluno da classe, observei no meu redor; à frente estava minha mãe, como rosto cheio de lágrimas de alegria e meus parentes, amigos e presentes aplaudiam e assobiavam. Eu com um grande sorriso, agradeci….”

Quando perto do solo o rodopio da folha era mais rápida .e a luz refletida nele mais tênue.

“…estava num restaurante caro e chique a luz de velas. Minha namorada; uma mulher linda, me dava um presente. Era um relógio muito fino. Tinha as minhas iniciais gravadas em relevo de ouro no lugar do ponteiro da meia noite. Fiquei sem palavras. Procurei seu olhar junto ao meu…”

Foi quando a folha deu um giro rápido e caiu se espatifando no chão.

Alguma coisa me paralisou naquela cena.

Em transe não notei a presença de algumas crianças ao longe a brincar de bola. Gritavam aos berros para que chutassem a bola perdida.

O barulho me despertou do “encanto”. Levantei assustado.

“Como viera parar ali? Que horas seriam?”

Olhei ao meu redor e percebi que estava num parque.

Hesitante comecei a caminhar sem rumo.

O lugar não parecia familiar; contudo, minhas pernas caminhavam firmes por entre as ruas; a me levar para algo que não fazia sentido, mas urgia caminhar.

Eram ruas largas, floridas e arborizadas. Os seus perfumes me entorpeciam.

Foi quando de relance; percebi do outro lado da rua uma igreja enorme. Ouvi, então, o badalar de um sino.

Bléim.  Bléim.   Bléim.  Bléim.

 

 

Levantei os olhos e levei um grande susto…

O sino continuava a badalar, mas eu não ouvia o som dos seus badalos…

Algo me impingia a prosseguir a caminhada.

À frente via-se um Sol avermelhado; transformando todas as coisas em cores alaranjados e tons pastéis.

Ao caminhar matutava naqueles quatro badalos.

“O que será que significa ? Será que estou ficando louco…?”

Essas perguntas me intrigavam. Andava absorto pelas questões.

Era uma avenida larga e longa.

Naquele instante, um episódio me chamou a atenção do outro lado da avenida.

Uma mulher e uma criança no alto de uma escada, chamavam um homem atravessando a rua.

Em resposta ele parou e virou-se.

…Um barulho enssurdecedor de um carro a brecar; chamou a atenção de uma multidão de pedestres. Todos correram e criaram uma roda humana em torno do incidente.

Também fui impelido a correr para o local.

Me esforcei em atravessar aquela massa de “urubus” em busca de “carniça”.Cheguei a clareira da roda. E o brilho de uma luz me ofuscou a vista, minha atenção foi chamada para um relógio  de pulso estraçalhado no chão. Me aproximei e observei melhor, ele era dourado e com uma gravação nele que me era familiar. E os seus ponteiros indicavam quatro horas.

De sobressalto me virei e o meu olhar foi de encontro ao rosto do corpo jogado ao chão.

Soltei um grito desesperador…

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…Era uma tarde cinzenta e escura, uma chuva a cair constantemente.

Tudo era silêncio. Tudo eram cinzas.

Numa avenida grande, fria e deserta; um homem de joelhos com as mãos tapando o rosto chorava… Chorava… E chorava copiosamente.

 

 

Agora, tomara consciência…

São Paulo, 24 de janeiro de 2003.

Dia dos Namorados

Nesta Data

Quero parar o Tempo

Não o nosso tempo

Mas, um tempo para “olhar”

O sentir do Tempo…

Cada vez mais sem Tempo…

Desde que te conheci!

 

Nota:  Tempo (tempo próprio do coração)

tempo (tempo do relógio)